A culpa não gera mudança, a responsabilidade sim

Citação de Catarina Oliveira: "A culpa não gera mudança, a responsabilidade sim"

Enquanto pessoa com deficiência há 6 anos e, portanto, tendo sido uma pessoa sem deficiência durante 27 anos da minha vida, sinto na pele a forma contrastante como a sociedade me vê. E não aceito. Acredito que todos nós, com ou sem deficiência, temos a possibilidade de mudar essa visão.

Chamo-me Catarina, tenho 33 anos e sou uma mulher com deficiência, não desde sempre mas acredito que para sempre. A constante discriminação que sinto, única e exclusivamente porque me sentei numa cadeira de rodas, foi o repto para que, talvez sem intenção, me tenha tornado uma ativista pelos direitos da pessoa com deficiência. Para dar voz ao que acredito, utilizo, entre outras ferramentas, as redes sociais, especificamente o Instagram. Criei o meu projeto @especierarasobrerodas onde vou partilhando as diversas formas de capacitismo de que sou alvo e, desmistificando tabus, estigmas e estereótipos sobre a pessoa com deficiência. Faço-o com humor, que acredito ser uma ferramenta poderosa, sem o intuito de culpar quem me ouve, mas sim de criar alertas e mais responsabilidade. Acredito que a culpa não gera mudança nem cria movimento. A responsabilidade sim.

“Mas, Catarina, capacitismo?” Quantos de vós já ouviram falar da palavra “Capacitismo”? Poucos, creio. Talvez se a escrever em inglês vos seja mais familiar: Ableism. Provavelmente continua a ser um termo desconhecido para muitos.

Capacitismo é a palavra encontrada para definir toda e qualquer discriminação contra a pessoa com deficiência. Dito desta forma pode parecer algo vago e difuso, mas vive latente na  sociedade do presente, do passado e, espero eu, estará cada vez menos na do futuro. 

Somos, fomos ou seremos capacitistas. Todos. Porque crescemos e nos formamos numa sociedade que o é. Mas podemos desconstruir o nosso capacitismo. Como? Ouvindo as pessoas com deficiência. Proporcionando, nos espaços, lugar para as pessoas com deficiência. Promovendo a sua representatividade. Apoiando a pessoa com deficiência, ao seu lado (não à frente, não atrás), a desconstruir as barreiras e o capacitismo. 

E porquê? Bom, espaços mais inclusivos, diversos e acessíveis, servem toda a sociedade, não só as pessoas com deficiência. Se assim é, deveria ser a premissa base de qualquer estabelecimento, evento, comunidade – numa perspetiva de cidadania. Mas não só. Também é necessário olhar para a inclusão, diversidade e acessibilidade numa perspetiva económica porque pessoas com deficiência são potências económicas e que, geralmente, não vêm sozinhas. É necessário entender que a criação de espaços onde todos possam circular livremente e usufruir das suas condições com equidade, vai criar ambientes produtivos, diversos e rentáveis.

Um dos ambientes onde, frequentemente, a acessibilidade e inclusão são esquecidas, é o do entretenimento. Este esquecimento, é, na minha opinião, mais um fruto do capacitismo que não permite à pessoa com deficiência ser vista como potencial interessado(a). A pessoa com deficiência, à luz da visão capacitista vigente, não é considerada como alguém que quer, pode e deve usufruir do lazer, cultura e entretenimento. 

É necessário criar propostas culturais para que todos possam usufruir destes espaços. Está obsoleta a justificação de que “a pessoa com deficiência não faz parte do meu público”. Se não fizer é porque os promotores não oferecem as condições para que a pessoa com deficiência seja parte do seu público, e seja, também, desperdiçada uma potência económica.

Não queremos favores quando falamos de acessibilidade. Queremos e exigimos um direito humano. Vários. Acessibilidade, equidade e independência. Que beneficiam todos. 

Moralmente sim, mas economicamente também.

Catarina Oliveira

Catarina Oliveira é natural do Porto, Nutricionista Licenciada em Ciências da Nutrição e Alimentação pela Universidade do Porto. Apaixonada pela comunicação, depois de uma inflamação na medula, em 2016, que culminou na entrada de uma cadeira de rodas no seu dia-a-dia, criou uma página no instagram (@especierarasobrerodas) onde um dos principais objectivos, é mudar mentalidades, quebrar preconceitos e tabus relacionados com as pessoas com deficiência.

Amplificador

Crip Camp é o documentário de Nicole Newnham e Jim LeBrecht, produzido pelo casal Obama, sobre o movimento dos direitos de pessoas com deficiência nos EUA. Começa com a experiência do acampamento Camp Jened, que decorreu entre 1951 e 1977, para jovens com várias deficiências, e acompanha-os na luta por direitos civis até hoje.

Agenda

Eventos com acessibilidade física, legendagem, Língua Gestual Portuguesa e Audiodescrição. 


Festival Mental 
22 de Maio

Destaques: Exibição “Crip Camp” (2020) seguido de uma M-Talk sobre: Direitos Humanos e Saúde Mental com Mafalda Ribeiro, Andreia Friaças, Ana Mota Teles, Diana Martins Correia, Gonçalo Delicado.

+ info: www.mental.pt e www.ticketline.pt

Acessibilidade: espaço físico, legendagem em português do filme. 
 



Sub_Bar
26 e 27 maio, Útero

Com Sub_Bar, a Eufonia lança uma série pioneira de eventos explorando a música, as sub frequências e o sentido táctil. Artistas ouvintes, pessoas com deficiência auditiva e Surdos criaram obras utilizando apenas sub frequências. Essas composições serão tocadas através de um poderoso sistema de subwoofer, transformando o Útero numa sala de pressão musical, para uma experiência auditiva única que activa todo o corpo.

+ info: eventbrite.de 

Acessibilidade: espaço físico (1 degrau na entrada, sem wc adaptado), Língua Gestual Portuguesa nas palestras, experiência imersiva.
 



CCB, Rádio Antecâmara: 17% 
26 maio, Garagem Sul Centro Cultural de Belém

O programa 17% coloca em diálogo pessoas com deficiência e arquitetos que trabalham o espaço público e edificado. Se cada vez mais a sociedade está sensível ao tema da mobilidade, os arquitetos, através da construção de lugares inclusivos, desempenham um papel fundamental nesta mudança social. Moderado por Tiago Fortuna, que vive com uma deficiência física e tem vindo a desenvolver trabalho na área da acessibilidade cultural, juntam-se à conversa os arquitetos Lia Ferreira, que também vive com deficiência física, Catarina Raposo, cofundadora do atelier Baldios, e Tiago Mota Saraiva, cofundador do ateliermob.

+ info: ccb.pt 

Acessibilidade: espaço físico. 

Mais sugestões em www.cultura-acessivel.pt

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