Continuar a estudar nem sempre foi uma opção para mim, foi uma decisão que tomei impulsivamente e foi das melhores da minha vida. Achava que não se enquadrava com as minhas possibilidades, nem com a minha rede de suporte. Contudo, o Ensino Superior proporcionou-me experiências inesquecíveis e insubstituíveis, que mudaram completamente a minha trajetória e visão do mundo.
Lembro-me do primeiro dia em que entrei na Universidade de Évora e o choque foi brutal. Comecei a perceber que não conseguia aceder a uma série de espaços, nomeadamente, aos pisos superiores, onde tinha aulas, quer porque os elevadores eram muito apertados, ou porque estavam avariados.
A partir daqui, iniciou-se um longo processo em que me senti dividida entre estar no curso que tanto quis e um confronto com a realidade da falta de Acessibilidade em tantos serviços. Por outro lado, também foi uma verdadeira prova de autonomia, em que apresentei sempre alternativas à instituição (que raramente foram consideradas). Foi também nesta fase que compreendi o impacto prático do ativismo, e como o assumir deste papel de responsabilidade individual pode ser um caminho exigente e até satisfatório, mas sobretudo solitário.
Mais tarde, e à medida que aprofundei os meus conhecimentos na área da Psicologia, fui percebendo a dimensão alargada deste problema. Os mais recentes dados da DGEEC apontam a (ainda) reduzida quantidade de instituições de Ensino Superior com capacidade para reconhecer as necessidades educativas específicas dos seus estudantes, em 95 instituições apenas 69 afirmam dispor de salas de aula e casas de banho acessíveis. O European Disability Forum reforça estas estatísticas quando aponta a o contributo da falta de Acessibilidade para o desenvolvimento de problemas de saúde mental nas pessoas com deficiência, o que parece óbvio, e nos traz a uma questão fulcral: não será a falta de Acessibilidade, também, um problema de saúde pública?
Mais do que a falta de recursos, foi a resistência à mudança. Para muitos docentes, transmitir uma aula online parecia mais grave do que impedir uma aluna de estudar. Pensei muitas vezes em desistir, e não faço esta afirmação num tom romantizado ou encorajador, foi uma experiência muito frustrante e que me levou ao limite em vários sentidos. Percebi que é o preço a pagar por conquistas básicas, como tentar ter um emprego estável, e que, não seguindo este caminho, também não teria sido melhor para mim. Ficar em casa para sempre, sem objetivos de vida, é uma ideia que me perturba.
Felizmente, a vida é cheia de ambiguidades e foram elas que me salvaram. O gosto por aprender e trabalhar, os amigos que fiz e toda a rede de apoio que construí fora deste contexto fizeram-me perceber que a Universidade é apenas uma de muitas portas e é, inclusive, em si mesma, uma porta para outros tantos caminhos. Foi assim que nasceu o Ensino Superior + Inclusivo, um grupo de jovens com deficiência que apoia outros estudantes na sua jornada académica, estabelecendo os contactos necessários e prestando toda a informação que precisam.
É um privilégio poder escutar as experiências de outros estudantes, que trazem medos, construídos por si mesmos e pelos seus cuidadores, mas no fim, sobra a esperança e a vontade de continuar. É, para mim, um compromisso continuar a apoiar outros estudantes nas suas pequenas grandes conquistas, revejo-me muito e espero fazê-lo por muitos anos, quer voluntariamente, ou mesmo a nível profissional.
Ainda há um longo caminho, psicossocial e político, pela frente. Estou disposta a percorrê-lo ao lado das pessoas certas.
Inês Silva
Inês da Silva, 23 anos, nasceu e cresceu no Baixo Alentejo, em Ferreira do Alentejo. É uma jovem mulher com deficiência e conhece a vida em cadeira de rodas desde os 7 anos. Licenciada em Psicologia pela Universidade de Évora, frequenta atualmente o Mestrado em Psicologia Clínica.
Desde 2023, tem participado em eventos e projetos europeus, e em 2022 criou a comunidade @esperasentada__, movida pela defesa dos Direitos Humanos e pela importância da representatividade. Leva demasiado a sério os devaneios das suas insónias e, por isso, frequenta também uma pós-graduação em Estudos da Deficiência e Direitos Humanos no ISCTE, procurando colocar a Psicologia ao serviço das políticas públicas e da saúde mental.
Megafone
Perdemos Alice Wong no início do ano. Uma referência central na comunidade das pessoas com deficiência, em particular no movimento de Disability Justice, nos direitos civis, na comunidade ativista digital e nas interseções entre deficiência, género, raça e imigração. O seu trabalho marcou especialmente pessoas com deficiência crónica e ativistas que usam os meios digitais como espaço político. Recordamos esta entrevista de finais de 2023 onde Alice fala sobre como desafiar os estereótipos da deficiência e sua visão de um mundo onde as pessoas com deficiência não fiquem isoladas.
Clipping
Plano de ação em marcha: caminhos para a execução
O Plano de Ação para a Promoção da Empregabilidade de Pessoas com Deficiência é uma iniciativa da Rede Capital Social, construída em cocriação com entidades da Economia Social e tem como objetivo melhorar o acesso ao emprego em Portugal.
Após as apresentações públicas do Plano, a Rede Capital Social assinala um novo momento: fica o convite para o evento “Plano de Ação em Marcha: Caminhos para a Execução”, no dia 3 de fevereiro, às 17h00, na Universidade Católica Portuguesa do Porto. O encontro será um espaço de partilha e diálogo sobre os próximos passos e o papel das organizações da Economia Social. Inscrições aqui.
Agenda
Eventos com acessibilidade física, legendagem, Língua Gestual Portuguesa e Audiodescrição.
John Gabriel Borkman | Lisboa
Teatro S Luiz , 6 e 8 de fevereiro
Destaque:
John Gabriel Borkman, de Henrik Ibsen, acompanha a queda de um ex-banqueiro condenado por fraude que vive isolado em casa, obcecado com a recuperação da glória perdida. O drama explora conflitos familiares, ambições desmedidas e o delírio de grandeza de um homem que se vê como injustiçado e salvador, num retrato inquietante da arrogância e das suas consequências.
+ informação: Teatro São Luiz
Acessibilidade:
Audiodescrição. Sexta-feira às 20h e domingo às 17h.


