Do relato à audiodescrição no futebol

30/01/2025

Em 2019, quando faço a formação de audiodescrição UEFA, fico perplexo. Quando me é apresentado o conceito, não consigo conceber como é que algo tão óbvio sempre passou desapercebido, a mim e a muita gente.

Adeptos cegos podem ouvir os jogos pelo rádio… Certo, mas errado. E a partir daqui se “arrastou” o atraso e o desconhecimento da audiodescrição.

O adepto cego está privado daquele que é o principal de todos os fatores que fazem parte de um espetáculo de futebol, os 22 homens a correr atrás da bola, as balizas e o golo.

O rádio é, indiscutivelmente, o principal companheiro de um adepto com baixa visão, pois acompanha o jogo de uma forma muito mais pormenorizada do que o comentário televisivo, onde o discurso dos comentadores passa mais pela realização de um diálogo sobre o jogo, com o escasso conteúdo concreto da ação.

Criado como forma de difundir os jogos para o público, é, contudo, idealizado a pensar em adeptos que ou vão aos estádios ou têm o conhecimento do que é um jogo de futebol, um campo, uma baliza, como são os equipamentos, não a pensar num adepto cego.

Mas se colocarmos questões: como e de que cor são os equipamentos das equipas? E dos árbitros? Muitas ou poucas pessoas no estádio? Há bandeiras nas bancadas? Luz artificial ou ainda entra luz natural?; estas dúvidas raramente conseguem ser respondidas através de um relato tradicional.

Posteriormente, em momentos calmos do jogo, onde os defesas de uma equipa trocam a bola longe da baliza adversária, normalmente há lugar para um comentário de análise, e para quem depende totalmente da narração do jogo equivale ao desligar da imagem televisiva.

Tudo isto, contudo, é a experiência do adepto à distância. Um adepto cego que pretenda assistir a um jogo ao vivo acaba por ser quase que “negligenciado” tendo em conta a sua experiência, isto porque a rádio, apesar de poder ser sintonizada através de um rádio conventual, é processada via internet, o que faz com que no momento em que o ouvinte ouve o golo pela rádio, já segundos antes todo o estádio se levantou para celebrar, perdendo a espontaneidade e a fluência que nos faz ir ao estádio.

A audiodescrição coloca-se então em paralelo com a televisão e com a rádio como mais um meio de difusão. A descrição das equipas, dos equipamentos, do estádio, do ambiente, é essencial para começar a pintar a tela na mente das pessoas, e a partir do apito do árbitro a prioridade é sempre dada à bola de jogo, onde é que ela está, com quem está, como está. Em momentos calmos (como já referido, onde “os defesas de uma equipa trocam a bola entre si”) a descrição não só não deixa de ser realizada, como é mais aprofundada, referindo (a título exemplificativo) a altura das meias do jogador com a bola, o pé com que a recebe e passa, acessórios, cabelo, tatuagens, entre demais detalhes.

A emissão é realizada a partir do estádio de forma analógica, assim o sinal chega aos rádios sem qualquer atraso, garantindo uma experiência ideal e permitindo o acompanhamento do jogo em perfeita sintonia com todos adeptos presentes no estádio.

O objetivo principal é simples, permitir que quem ouve o relato se levante para celebrar um golo exatamente ao mesmo tempo do que o restante estádio. Tudo isto é uma mais-valia para estes eventos, pois não se trata de um serviço exclusivo nem de um serviço pago; é algo que todos os adeptos podem usufruir, um serviço com uma preocupação dedicada a pessoas cegas, mas que é para todos.

Miguel Jorge

Miguel Jorge é formado em Gestão de Património com 10 anos de experiência na área. Faz parte da equipa do Serviço Educativo do Museu FC Porto, onde para além da gestão da equipa e de reservas de visitas, participa também no desenvolvimento do programa educativo. Em 2019, após a realização de uma formação através da UEFA, entra no mundo da audiodescrição do futebol, projeto que vem sendo desenvolvido até aos dias de hoje em paralelo com a restante atividade profissional, e que conta com vários trabalhos consistentemente desenvolvidos junto de instituições como a UEFA, AccessibAll, FC Porto, Federação Portuguesa de Futebol, Liga Portugal, Fundação da Liga, a própria Access Lab entre outros.

Megafone

Breve documentário do FC Porto sobre a relevância da audiodescrição nos jogos de futebol. Entrevistas a adeptos cegos e/ou com baixa visão. Todo este vídeo é, também ele, audiodescrito.

 

Clipping


Sporting inaugura primeiro camarote inclusivo

 

Notícia – Notícias ao Minuto

O Sporting Clube de Portugal inaugurou, no Estádio José Alvalade, uma sala destinada a pessoas com deficiência, surdas e com neurodivergência. “The Green Box” é o primeiro camarote inclusivo num estádio em Portugal.

Quando a deficiência leva a outras formas de tocar música
 

Reportagem Público

Uma orquestra de samples, um instrumento que não precisa de ser tocado, objetos comuns repensados… O Público foi conhecer histórias de adaptação.

 

Agenda

Eventos com acessibilidade física, legendagem, Língua Gestual Portuguesa e Audiodescrição. 


Macbeth | Teatro Municipal São Luiz 
21 e 23 de fevereiro, Teatro Municipal São Luiz, Lisboa 

Destaque: Heiner Müller é uma voz inconfundível na dramaturgia mundial. Feroz e brilhante, brutal e profunda. Em Macbeth, Müller acrescenta uma visão contemporânea à obra de William Shakespeare, mais sanguinária e brutal que de questionamento das barreiras da democracia e dos valores humanos e que, em tempos de guerra, se revela um instrumento de reflexão da Europa contemporânea.


Mais informação:Teatro Municipal São Luiz

Acessibilidade:
Língua Gestual Portuguesa e audiodescrição com reconhecimento do palco 1 hora antes do início do espetáculo.


Mais sugestões em www.cultura-acessivel.pt

Scroll to Top
Skip to content
accesslab favicon
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.