Nenhum pai se apercebe da falta de inclusão no ensino até ter um filho com deficiência…

18/03/2026

A Sofia tem paralisia cerebral que afecta a parte motora do seu corpo. Desloca-se numa cadeira de rodas elétrica, que conduz autonomamente. Não fala, mas comunica através de um tablet que a acompanha na cadeira, ou pelo computador, através do Pceye.

Hoje tem 10 anos e frequenta o 5.º ano do ensino regular. Entrou na escola com 2 anos e os primeiros anos foram correndo bastante bem.

As dificuldades começaram a surgir quando passou para o 1.º ano lectivo. Tornou-se evidente a falta de conhecimento dos sistemas de comunicação aumentativa e alternativa e a falta de experiência em saber adaptar actividades para a Sofia. Sempre tentámos ajudar, promover formações, partilhar conhecimento… No entanto, rapidamente começou a emergir outra questão: a necessidade de uma assistente operacional que desse apoio à Sofia — algo que, no ensino privado, raramente existe sem custos acrescidos para os pais.

Este primeiro ano foi particularmente difícil. No final do ano lectivo, a escola “sugeriu” que a Sofia saísse, alegando incapacidade de resposta. Foi um dos momentos mais angustiantes das nossas vidas. Com os prazos do ensino público já encerrados, restava-nos procurar outro colégio. Na época, contactámos cerca de dez colégios e apenas um aceitou receber a Sofia: a Associação Infante Sagres.

Em dois meses, a Sofia aprendeu a ler e a escrever — algo que não tinha conseguido até então. Mas mais que isso: foi incluída em tudo, desde as mais simples actividades do dia-a-dia, a visitas de estudo,

idas à praia, até numa viagem de finalistas de três dias ao Gerês…

Pela primeira vez senti que foi a escola que se adaptou à Sofia e que nunca foi a Sofia que se teve que adaptar à escola.

Quando terminou a primária, tivemos de recomeçar a procura de uma nova escola. Desta vez contactei cerca de 20 colégios em Lisboa. Nenhum aceitou a minha filha. As justificações repetiam-se ao longo de mais de 6 meses de procura: falta de vagas, falta de recursos, falta de acessibilidade ou falta de “capacidade”.

Nas escolas públicas encontrei, muitas vezes, vontade genuína de incluir. Mas esbarrei na falta de acessibilidade e de meios — sobretudo de assistentes operacionais ou mesmo de professores de ensino especial.

No privado existe autonomia e capacidade financeira para colmatar qualquer falta de meios ou acessibilidade. Mas é-lhes “permitido” rejeitar crianças tendo em conta, unicamente, as suas características.

Foi aqui que percebi que o problema não é de falta de recursos mas sim de compromisso e de querer verdadeiramente incluir.

Se o público tem vontade mas não tem condições e o privado tem essas condições mas não tem vontade, onde fica a inclusão?

A inclusão não pode ser uma exceção feliz. Tem de ser a regra.

Tatiana Perdigão

Tatiana Perdigão tem 40 anos, é Advogada e Mãe da Sofia Monteiro, uma menina de 10 anos com paralisia cerebral que afeta a parte motora do seu corpo.

A Sofia frequenta o 5.º ano do ensino regular e é uma criança feliz e determinada, que costuma dizer que “a paralisia cerebral não a define, é apenas uma das suas muitas características”.

Não fala, mas comunica através dos meios de Comunicação Aumentativa e Alternativa.

Juntas, criaram a página de Instagram @amiudasofia, com o objetivo de partilhar o seu dia a dia, promover a inclusão e naturalizar a deficiência.


 

Megafone

Recordamos o momento marcante em que a Seleção Nacional entrou em campo pela mão da Sofia, dia 18 de junho de 2024, antes do primeiro jogo de Portugal no Campeonato Europeu na Alemanha. Foi Cristiano Ronaldo que teve a honra de acompanhar a Sofia num momento de representatividade e inclusão.


Clipping


Direito ao esquecimento – crédito e seguros sem penalização por doenças passadas 

 

Artigo E-konomista 

O Governo publicou o Decreto-Lei n.º 79/2026, que regulamenta e reforça o chamado “direito ao esquecimento”. Esta é uma medida destinada a proteger pessoas que tenham superado ou mitigado situações de risco agravado de saúde ou de deficiência no acesso a crédito e contratos de seguro.

A nova legislação clarifica regras e mecanismos de aplicação da lei já existente, e garante que bancos e seguradoras não discriminem com base em doenças ou condições de saúde ultrapassadas.


 

Agenda

Eventos com acessibilidade física, legendagem, Língua Gestual Portuguesa e Audiodescrição. 

Diana Niepce – Hornfuckers | Lisboa

Culturgest, 26 a 28 de março

Destaque: Hornfuckers, termo inglês vulgar aqui reapropriado, expõe a nossa cumplicidade com sistemas de opressão que sabemos injustos. Entre força, suspensão e risco, os corpos testam limites físicos e morais, desafiando gravidade e hierarquias. Inspirada no butoh, no circo contemporâneo e em princípios da física, a criação propõe um confronto direto com aquilo que somos e com o que escolhemos ignorar.

+ informação: Culturgest

Acessibilidade:
Espetáculo com audiodescrição.

Acesso pré-performance ao palco para toda a audiência (uma hora antes do início do espetáculo) com visita informal para conhecer o espetáculo, contactar com o elenco e explorar figurinos, cenografia e palco. Inclui experimentação de luz e som na intensidade máxima e esclarecimento de conteúdos sensíveis. Destina-se a pessoas que necessitem de apoio específico, como pessoas cegas ou com deficiência visual, pessoas neurodivergentes, pessoas Surdas ou com deficiência auditiva e pessoas com deficiência física, bem como a quem precise de se familiarizar com o espaço ou tenha ansiedade em relação ao espetáculo.

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