Em 1952, em Nova Iorque, uma mãe levou a filha de cinco anos para a matricular numa escola. O diretor recusou, porque, e cito: “esta criança é perigo num incêndio”. Anos depois, já numa escola pública, foi colocada numa sala na cave, com outros alunos de “educação especial”, afastada dos colegas sem deficiência. Esta criança era a Judith Heumann, uma pessoa com deficiência adquirida por poliomielite aos dezoito meses, cuja história é contada no livro infantil Lutar pelo Sim!, editado em português pela Edições Access Lab, a recente editora da Access Lab.
Enquanto mulher com deficiência, sou fã incondicional da Judy, como é carinhosamente conhecida por todos nós. Fiquei muito entusiasmada quando soube que teria a oportunidade de ler esta história, em formato infantil, às crianças cá de casa.
Este livro mostra como uma vida repleta de “nãos” se pode tornar numa luta pelo sim. A Judy foi decidindo, ao longo da vida, que já tinha ouvido “nãos” suficientes e que teria de lutar, ela e a sua comunidade, pelo sim à inclusão, à acessibilidade, à equidade e à dignidade. Em 1977 liderou o Sit-in da Secção 504 uma ação de resistência que levou o governo a assinar a lei que obrigava instituições com fundos públicos a garantir acesso a pessoas com deficiência, abrindo caminho ao Americans with Disabilities Act.
Transformar esta história numa narrativa infantil parece-me uma obra-prima. Para uma criança com deficiência, este livro pode ser um espelho, a primeira referência de alguém que construiu a sua história e lutou pelos seus direitos. A Judy ensina que nada se faz sozinho, mostrando também as desculpas esfarrapadas que ainda hoje ouvimos para justificar a exclusão.
Para uma criança sem deficiência, tendo eu sido uma, gostaria de ter lido este livro na altura, porque teria sido a primeira vez que teria olhado para um colega com deficiência como alguém ativo, capaz de construir e ser dono da sua própria narrativa, e não como alguém “partido”, “estragado” ou esquisito.
Porque pais e professores são figuras de referência para as crianças, este livro é também para os adultos. Para pais de crianças com deficiência, ou pais com deficiência, como eu, pode validar a frustração que sentem perante um espaço inacessível, e ser um balão de oxigénio para continuar a luta. Para quem não tem contacto com o tema, é uma oportunidade de ouro para desconstruir a ideia de que acessibilidade é um favor, ou que a inclusão é assunto do outro, e não de todos nós. O outro somos nós, também.
Há uma frase da própria Judy que resume o espírito deste livro: “Quando alguém te trata como cidadão de terceira categoria, a primeira coisa de que precisas é acreditar em ti própria e saber que tens direitos; a segunda é um grupo de amigos disposto a lutar contigo.”.
E para quem tem uma deficiência e me lê: o “não” que ouvimos todos os dias não é um destino, mas sim um ponto de partida de uma luta que outras pessoas já começaram, e que nos cabe continuar.
Ler é, também, lutar.
Catarina Oliveira
Edições Access Lab
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