Em todo o lado onde quisermos estar

22/04/2026

Nasci com uma deficiência bastante visível. Tenho um braço mais curto do que o outro e cresci a ser lembrada disso todos os dias na escola. Mais do que uma alínea no meu atestado multiusos, o meu braço parece ocupar mais espaço do que o resto do meu corpo: define a primeira impressão que as pessoas têm de mim e como se dirigem a mim daí em diante. Desde que a minha filha nasceu, esta perceção ficou ainda mais clara. Há quem olhe para mim e veja, antes de tudo o resto, alguém de quem se espera menos: até na capacidade de cuidar da própria filha.

Cresci a ouvir que tinha de estudar porque iria lutar o triplo para chegar onde os meus colegas chegariam com mais facilidade. Talvez por isso seja a primeira pessoa da minha família a ter terminado uma licenciatura, um mestrado e, em breve, um doutoramento. Quando entrei no ensino superior, percebi rapidamente que a “igualdade” vinha cheia de letras pequeninas: precisei de fazer adaptações, pedir favores e negociar condições para chegar aos mesmos resultados que outros colegas conseguiam só por não terem nascido com uma deficiência.

Ser mãe tornou-me ainda mais consciente de que a educação é o lugar onde se consolida o protótipo de adulto que uma criança é. Transmitir valores como tolerância, respeito, amor-próprio e empatia é tão importante quanto qualquer conteúdo curricular, porque define a forma como a minha filha vai olhar para si e para os outros. Ao mesmo tempo, conciliar maternidade e doutoramento é, muitas vezes, interromper a hora de deitar para abrir as notas do telemóvel e registar uma ideia: é viver num trabalho 24/7, em que estes dois papéis se sobrepõem e moldam quem sou.

Recuso o drama que tantas vezes se cola à deficiência, mas também não posso fingir que não vejo os olhares de pena. O meu braço mais curto parece incomodar mais os outros do que realmente limita a minha vida. Não consigo controlar a primeira impressão que têm de mim, mas consigo decidir o que faço com essa atenção indesejada: posso deixá-la encolher-me ou transformá-la num megafone para falar de direitos, acessibilidade e equidade no ensino. Ser um aluno com deficiência no ensino superior não é uma história individual de superação, é enfrentar uma desorganização estrutural que precisa de resposta coletiva.

É obrigação das instituições fazer valer os nossos direitos, mas se não lutarmos por eles, ninguém o fará por nós. Falar sobre discriminação contra estudantes com deficiência não é ser dramático nem egocêntrico: é recusar que a injustiça continue a ser o prato do dia. O desconforto que o meu corpo provoca em alguns pode (e deve!) ser canalizado para ter conversas difíceis, pressionar mudanças e afirmar que o lugar das pessoas com deficiência também é na universidade, na política, no mercado de trabalho e na realidade… em todo o lado onde quisermos estar!

Joana Silveira

Joana Raminhos da Silveira é aluna de doutoramento em Multimédia em Educação e bolseira de doutoramento da FCT. A sua investigação versa sobre jogos educativos digitais inclusivos. É autora do livro infantil “A Joana Joaninha Só Tem Uma Pintinha” e criadora de conteúdos na página @comdefeitodefabrico, onde fala sobre deficiência sem drama. É Mãe da Luísa e manager da Leia.


 

Megafone

 

Hilary Brown, investigadora em saúde materno-infantil, centra a sua TED Talk na forma como a deficiência materna é frequentemente ignorada na investigação e nos sistemas de saúde. Hilary Brown destaca como mulheres com deficiência enfrentam barreiras invisíveis antes, durante e após a gravidez.

A sua abordagem desafia estereótipos sobre maternidade e deficiência, mostrando que o problema não está nas pessoas, mas nas falhas estruturais. Defende a necessidade de produzir melhor evidência e de ouvir estas mulheres e sublinha a importância de sistemas de saúde mais inclusivos, que respondam às suas necessidades reais.


 

Clipping

Especialistas rejeitam condição de recursos na assistência pessoal para pessoas com deficiência
 

Artigo Jornal Público 

Especialistas na área da deficiência, incluindo investigadores e representantes de organizações do setor, rejeitam a possibilidade de o Orçamento do Estado vir a introduzir critérios de rendimento no acesso à assistência pessoal. A proposta prevê condicionar este apoio à condição económica, colocando em causa um modelo assente nas necessidades individuais e fundamental para a autonomia, o acesso à educação, ao trabalho e à vida independente.


 

Agenda

Eventos com acessibilidade física, legendagem, Língua Gestual Portuguesa e Audiodescrição. 

A Batalha do K‑POP em Concerto (Tributo) | Lisboa

MEO Arena | Sala Tejo
25 de abril

Destaque: Inspirado num universo de sucesso global da Netflix, este espetáculo ao vivo junta energia K-pop, narrativa cinematográfica e uma forte componente visual numa experiência imersiva que vai além de um concerto. Com temas como “Golden”, “Soda Pop” e “How It’s Done”, coreografias intensas e uma história envolvente, este fenómeno cultural chega agora a Portugal, depois de sessões esgotadas e grande adesão internacional.

+ informação: MEO Arena

Acessibilidade:
A sessão das 18h tem disponível o recurso de Audiodescrição. Para baneficiar deste serviço, basta adquirir um bilhete válido para o evento e enviar um email para acessibilidade@aarena.pt até 72h antes.

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