A criatividade como sobrevivência

05/03/2026

Dizem alguns que a criatividade é um dom inato reservado a uma minoria da população, a dos artistas, dos génios e daqueles que nasceram com uma espécie de luz especial. Não concordo. A criatividade é uma competência fundamental, uma habilidade praticável e uma capacidade humana que todos possuem e podem desenvolver. As aptidões, que são os talentos, são apenas uma pequena percentagem do que significa ser criativo.

Aliás, se ser criativo fosse um talento raro, então as crianças seriam todas exceções. Mas não são, as crianças são a regra. Uma criança não olha para uma caixa e vê apenas cartão. Vê um carro, um castelo, um esconderijo. Ela nunca pede autorização para imaginar. Não pergunta se aquilo que inventa vai ser viável. Uma criança quando cria não tem medo de errar, simplesmente avança. Por isso é que a criatividade na infância é instinto. É adaptação pura. É a forma mais natural de habitar o mundo.

Depois crescemos e passamos a saber demais, ou a considerar que sabemos. Aparece quem nos ensina a ser “realistas”, a não inventar demasiado, a não arriscar respostas diferentes. A criatividade passa a ser extracurricular. Não dá dinheiro ou não é prático fazer uso dela. Chamam-lhe opcional, artística, quiçá alucinação ou devaneio. Como se resolver problemas inesperados não fosse uma necessidade, de todos nós, mas um capricho de uns quantos. O erro está em pensar que a criatividade é uma expressão à parte, quando ela é sobrevivência!

Para quem habita, desde sempre, no meu caso, num corpo com deficiência, que a sociedade não previu, a criatividade nunca foi um

luxo. É uma ferramenta diária. Umas vezes é estratégia de antecipação, outras vezes é improviso reativo. É o cálculo rápido perante um passeio sem rampa, uma porta pesada demais para os meus braços frágeis, um balcão alto o suficiente para que eu não seja vista, o vestuário da moda que me é interdito… etc. São muitos os cenários do quotidiano que estão desenhados para um padrão, onde não cabemos todos. Cada um dos obstáculos exige imaginação prática e cada saída de casa implica preparação. Não é inspiração poética — é precisar, de forma concreta, de negociar com o espaço, reinventar movimentos, encontrar alternativas e transformar frustrações em soluções possíveis. Não porque seja bonito, mas porque é indispensável. Quando o mundo não está preparado para a deficiência, somos nós que temos de ensinar a sociedade a ser criativa. Já que ao longo da história ela tem continuado a repetir modelos, a ignorar as diferenças e a errar sempre que constrói para a norma, em vez de para a funcionalidade.

A criatividade não pertence aos palcos nem às galerias. Pertence a quem insiste, persiste e resiste. A quem adapta e se adapta. A quem vive na ginástica mental das micro decisões, das estratégias invisíveis e das ideias capazes de transformar barreiras em percursos possíveis. A quem não aceita que “se não se veem pessoas com deficiência na rua é porque elas não existem”. A quem, como eu, vive há 42 anos com o selo do “cuidado, frágil!”, para além da imobilidade motora. De cada vez que faço uma fratura, nos meus apelidados “ossos de vidro”, é na criatividade que encontro o combustível da minha recuperação. Criar é que o me mantém em atividade, nas alturas em que tenho de estar acamada vários meses.

Ora se a criatividade é a capacidade de imaginar o que ainda não existe, e encontrar caminhos não planeados, então todos a usamos — ou deveríamos usar — todos os dias. Para melhorar processos, relações, rotinas. Para questionar o “sempre foi assim”. Para construir respostas novas para problemas antigos. Em resumo, é descomplicar e tornar o impossível apenas um exagero para o difícil. Já que o mundo foi desenhado, de forma limitada, para nele se movimentar todo o tipo de pessoas, com as suas características únicas e limitações, é imperativo que passemos a imaginar cidades inclusivas, antes de elas existirem. Desenvolver novas formas de comunicar necessidades, com gentileza e sensibilidade. Substituir a reclamação amarga pela pedagogia entusiasmada. Encontrar dignidade e acolhimento, dentro dos limites que nos são impostos pelo meio.

A criatividade torna-se então: a arte de encarar um problema como um desafio, mudando primeiro a nossa perspectiva interior, dar largas à inquietação e correr riscos.

Será então que, com o passar dos anos, deixamos de ser criativos?
Talvez apenas tenhamos deixado de nos autorizar a sê-lo.

Mafalda Ribeiro

Mafalda Ribeiro é atualmente consultora externa de D&I para a Inclusão do grupo Jerónimo Martins. Tem dois livros publicados: “Mafaldisses – Crónicas sobre Rodas”(2008) e “Gotas no Charco” (2023). Certificada em storytelling, formada em Jornalismo, é também palestrante e cronista mensal no portal digital “O Motivo”.


 

Megafone

O último dia de fevereiro assinala o Dia das Doenças Raras. Foi também neste mês que estreou “Matter of Time”. O documentário acompanha os concertos solidários de Eddie Vedder, em Seattle, e a mobilização de famílias, cientistas e ativistas na corrida por uma cura para a epidermólise bolhosa, uma rara doença genética da pele. Um retrato comovente sobre como a música, a ciência e a comunidade podem impulsionar avanços reais na investigação das doenças raras. Disponível na Netflix.


Clipping


Está em marcha um plano de 4 milhões de euros para acelerar o emprego de pessoas com deficiência 

 

Artigo Executive Digest 

A Rede Capital Social  lançou o Plano de Ação para a Promoção da Empregabilidade de Pessoas com Deficiência, uma iniciativa com um investimento estimado entre 3,8 e 4,2 milhões de euros, que pretende apoiar o Estado na resposta a um dos desafios sociais mais estruturantes do país.

O plano envolveu 120 entidades e reúne 20 medidas estratégicas, organizadas em três eixos principais: enquadramento legislativo; recolha e organização de dados, simplificação e centralização de informação; e reforço da capacitação e sensibilização.


 

Agenda

Eventos com acessibilidade física, legendagem, Língua Gestual Portuguesa e Audiodescrição. 

Cabe mais um? | Leiria

Teatro José Lúcio da Silva, 6 de março

Destaque: Dois gatos vivem tranquilos até a chegada de um cão abalar a rotina da casa. Entre desconfianças, tentativas de adaptação e muito humor, esta é uma história sobre diferenças, convivência e a descoberta de que, afinal, pode haver espaço para mais do que se imagina. Será que cabe mais um?

+ informação: Teatro José Lúcio da Silva

Acessibilidade:
Espetáculo do Língua Gestual Portuguesa e Audiodescrição.

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